14/09/2018

15. Clair

clair network


layers: 10


layer 1: reality network
layer 2: domain
layer 3: multiverse
layer 4: universe
layer 5: filament
layer 6: supercluster
layer 7: galaxy group
layer 8: galaxy
layer 9: system
layer 10:
 object


domains: 3


domain 1: tremolo
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time nails: on
reversibility: off
fate dice: on
domain transit: on
cyan apple
s: on

13/09/2018

14. No Jardim de Getsêmani

Os minúsculos pés descalços que corriam por entre as araucárias não previam que a terra fofa estaria suficiente úmida pelo Ribeirão dos Padilhas. O escorregão foi inevitável. A cara de bolacha se esbofeteou no barro como uma bola de golfe enterrada num bunker. Outras crianças que perseguiam esta também caíram, mas em risos. A alguns metros dali, adultos que capinavam o terreno para o plantio de hibiscos também sorriram uns para os outros enquanto passavam uma taça de mate para todos beberem. Todos vestiam mantos, alguns de seda, outros de algodão fino. Um cheiro de terra molhada ocupava o ambiente idílico, até porque o vento fazia desviar a fumaça de sândalo aceso ao céu aberto. As crianças se levantaram e continuaram sua correria. Dailan estava com o rosto completamente enlamaçado, mas não deixou a brincadeira fácil para seus amigos: eles nunca o pegariam se ele subisse numa árvore; ninguém consegue escalar árvores como ele. Se não aproveitaram a chance enquanto ele caiu, nunca mais vão conseguir apanhá-lo.

O som de um helicóptero revoando a comunidade se tornou alto enquanto Dailan se infiltrava em meio à floresta. "Libélula de ferro", eles chamavam aquela máquina voadora barulhenta. Depois de muito correr, ele escalou um pinheiro de tamanho médio, um pinheiro que ele já havia escalado antes e já sabia de todos os segredos de seu tronco, onde pisar e onde agarrar, ascendendo a um local bem alto, onde todos os galhos se estendiam para fora do corpo da árvore, mas antes de chegar no topo. Acima dele, havia apenas o cabelo verde da folhagem vegetal, que cobria a araucária como uma peruca enrolada em bobes. Dailan agora descansava sentado em um galho. Não ouviu mais o som dos seus amigos, não ouviu mais o som da libélula de ferro, nem dos pássaros ou do riacho, que agora estava longe. Começava a ouvir, porém, o som dos carros, dos ônibus, das máquinas, o murmurinho da civilização. Era fim de tarde. O pequeno olhou para o horizonte e ali no alto conseguia enxergar o que havia além do grande muro e da porteira: todas as fontes daqueles sons - uma grande avenida, o tráfego dos automóveis, pessoas com roupas estranhas passeando pelas calçadas... O que o mais chamou a atenção foi ver um rapaz andando de bicicleta lentamente, parando no meio da ciclovia e fixando o olhar em direção a ele. Era impossível que esse rapaz poderia estar vendo ele ali, mas Dailan se arrepiou ao parecer ter sido descoberto. Tentou fazer um aceno, mas o rapaz desviou o olhar e continuou a sua pedalada.

O sol se mergulhava, então o menino resolveu descer de sua árvore. O barro em seu rosto já ficara seco. Com muito cuidado, o pequenino fez sua descida e caminhou calmamente em direção ao seu vilarejo. O silêncio era atípico. O que também era atípico eram as poças vermelhas que ele encontrou ao passar pela plantação de hibiscos e o cheiro de morte que agora suplantava o sândalo e o barro. Foi quando, mais em frente, ao sair da trilha e chegar no seu vilarejo, o menino avistou a libélula de ferro pousada na clareira e os corpos de todas as pessoas que ele conhecia empilhados do lado da máquina voadora. Dailan rapidamente se escondeu em meio às árvores. Homens uniformizados saíam e entravam nas moradas, carregando todos os humildes pertences do vilarejo para fora: roupas, comida, móveis, brinquedos, tudo o que também lhe pertencia, pois tudo era de todos. O menino quis correr, quis enfrentar aqueles homens, quis recuperar suas coisas, e, acima de tudo, quis pular para o colo de sua mãe, de seu pai e de sua irmã, que agora possivelmente estavam em meio à pirâmide de cadáveres. De seus olhos úmidos escorria uma gota salgada, limpando apenas meio caminho da terra incrustada em sua bochecha, até pausar na metade do rosto. Uma outra lágrima fazia o mesmo do outro lado de sua face. As segundas lágrimas de cada olho foram mais persistentes, deslizando rapidamente pela via traçada pelas primeiras gotas e se unindo àquelas para completarem o caminho. Ainda não foram suficientes. Com as terceiras lágrimas, a terra cedeu, e agora duas linhas rosadas cortavam o seu rosto inteiramente, dos cantos dos olhos aos cantos da boca, e as gotas que caíam no chão eram da cor vermelha do solo em que Dailan se criou, unindo barro com barro.

Então, ele fugiu para a floresta.

29/07/2018

13. 13

"SEGURA!" – uma voz ressoa distante, acompanhada por passos corridos e respiração ofegante. Duas das três pessoas no elevador estendem os braços para que a porta ruiva de ferrugem não feche. Após alguns segundos, o rapaz surge cansado, faltando-lhe o ar, murmurando um "obrigado" em duas sílabas. O silêncio prévio do cubículo é consumido pelo arfar penoso do jovem, um som que se intensifica com o cerrar da porta. De sua jaqueta, seus dedos gordos retiram um nebulímetro, que ele agita e inala; uma cacofonia de sons que os passageiros não esperavam até minutos atrás. No terceiro andar, uma passageira sai, aliviada do incômodo social que a interação em dois metros quadrados pode ocasionar. Só então, o rapaz aperta o botão de seu andar, para a surpresa dos dois passageiros restantes: um deles o fita descaradamente com um olhar de quem acabou de testemunhar uma heresia; o outro, que está recostado ao fundo do elevador, o olha de baixo para cima, com o mesmo desprezo de quando decidiu não esticar o braço anteriormente. "Você viu que botão você apertou?!" – diz o primeiro, rapidamente, antes que o seu andar chegue. "Sim, quero ir para o 13 mesmo" – responde o jovem roliço. "Você é maluco!" – retruca o primeiro, ao mesmo tempo em que o elevador estaciona no sexto andar. "Você sabe o que acontece lá, né?!" – o mesmo indaga enquanto sai pela porta. "Sei sim, eu sou um explorador" – responde decidido o rapaz, enquanto mostra suas insígnias de escoteiro pregadas à sua jaqueta. Com um olhar incrédulo, sem dizer mais nada, a porta se fecha na cara do segundo passageiro. Agora, a sós com o doido, o terceiro passageiro, sem se retirar de sua posição de repouso, resolve se manifestar com uma voz calma, ainda que cética: "Então você acha que é capaz de lidar com o andar 13...". O jovem adulto, do alto de sua confiança, explica que já passou por provas físicas muito piores no escotismo, onde sua asma se exibiu de forma violenta. "Não há bombinha que te salve dos horrores que você irá encontrar..." – reitera o terceiro passageiro – "boa sorte" – diz ele ao sentir o elevador diminuindo a velocidade até parar no 13º andar e a porta se abrir, o que o faz abaixar a cabeça para o piso do cubículo, evitando até mesmo um simples olhar para o corredor escuro que agora se encontra em sua frente. O rapaz asmático cruza sozinho o portal enferrujado após um breve sentimento de insegurança e ansiedade.

Após a porta se fechar e o elevador subir em sua rota vertical, um silêncio absoluto tomou conta do ambiente, como se não existisse mais nada além das paredes daquele corredor e da respiração que agora ficava cada vez mais pesada. Apesar de ser dia, não havia muita iluminação naquele local, pela falta de janelas e lâmpadas funcionais, portanto o escoteiro sacou sua lanterna e a ligou imediatamente. A luz súbita revelou em menos de um segundo o que aparentou ser um formato humanoide mas completamente escuro, sem nenhum detalhe biológico, uma sombra materializada em terceira dimensão para instantaneamente desaparecer sob a iluminação da lanterna. O jovem soltou um grito e voltou correndo para o elevador. Lá ele moveu sua lanterna para todos os cantos e, ao não ver nada além do ordinário, se convenceu de que sua imaginação estava lhe pregando peças. "Você é mais forte do que isso!" – pensou alto. Continuou a caminhar lentamente pelo único corredor e, ao enxergar uma porta entreaberta entre várias portas fechadas de quartos abandonados, decidiu entrar. "Se é para provar minha coragem, vou escolher os caminhos mais amedrontantes!" – pensou baixo. Ao empurrar a porta com a mão, ouviu um barulho por suas costas. Quando virou a cabeça para ver o que era, o vulto que havia visto anteriormente estava parado diante dele, tremendo como se estivesse em convulsão, mas em pé com seus mais de dois metros de altura. Uma barulheira horripilante surgiu em meio ao nada - uma orquestra dissonante com sons de sibilos asmáticos e aspirações de nebulímetros. As ondas sonoras do grito que o jovem deu foram intensificadas, comprimidas e ampliadas a cada encontro com as paredes do corredor, o que transformou o grito num agudo ensurdecedor e cortante, fazendo quebrar a luz de sua lanterna e de outros vidros espalhados pelo andar. Sem escapatória, o rapaz correu para dentro do quarto que havia se proposto entrar, arremessando a lanterna contra o vulto, que agora havia desaparecido. Os sons também desapareceram repentinamente.

Sozinho na escuridão e no silêncio, com a plena certeza de que tudo era real, não havia mais nada a fazer, exceto criar coragem de voltar para o elevador e ir embora dali. Um breve momento para analisar seus arredores e tentar ouvir algum som vindo do corredor foi o suficiente - com a pressa de um fugitivo, o jovem se preparou e resolveu correr em direção ao elevador. Quando virou pelo corredor, viu o elevador parado com a porta aberta e uma pessoa dentro, então gritou com toda a sua força e desespero: "SEGURA!". A pessoa estendeu o braço e a porta do elevador fechou violentamente, decepando o braço do passageiro e fazendo esguichar sangue de maneira desproporcional por todo o corredor. O braço amputado permaneceu suspenso no ar e o jovem escoteiro, com suas roupas, suas insígnias e seu rosto cobertos de sangue, caiu e se ajoelhou no chão, num misto de absoluto horror, nojo, decepção, estresse e angústia. Chorou e gritou e praguejou e soluçou e esmurrou o piso, quando percebeu um ataque de asma se formando. Ao colocar as mãos dentro dos bolsos de sua jaqueta, percebeu que não havia mais bolsos ali. Também não havia mais insígnias e somente os destroços de alguns objetos que ele havia trazido, tal como sua bombinha. Foi como se o sangue, como um ácido, tivesse dissolvido parte de suas roupas e de seus pertences, mas estranhamente não a sua pele, embora ele sentisse uma leve ardência. Seu ataque de asma somente crescia e progressivamente seus brônquios inchavam cada vez mais, obstruindo-lhe a passagem do ar. Deitado no chão, o rapaz agora sufocava até a morte, enquanto uma misteriosa luz crescia por todo o ambiente. Sua respiração ofegava cada vez mais forte, e suas mãos, ele as levava ao peito. Com seus olhos arregalados, ele via centenas de outros olhos arregalados que se espelhavam do teto e das paredes, junto com a mesma sinfonia dissonante e volumosa de sibilos e respirações que havia tocado anteriormente. A luz cresceu tanto que o ambiente ficou profundamente branco, consumindo até mesmo a cor vermelha de todo o sangue, mas mantendo os pontos pretos das centenas de pupilas dilatadas. Diante dele, o vulto escuro, gigante, imponente, exorbitante, surgiu convulsionando. O rapaz estendeu o braço numa última esperança de ajuda e o vulto estendeu de volta. Nesse momento tudo desapareceu e o corredor voltou ao seu silêncio e breu pertinentes.

09/02/2018

12. Libertas Quæ Sera Tamen

Cianeto não é framboesa
Não tem afeto e não se serve à mesa
Eu lhe prometo sem delicadeza
Que se me submeto é por autodefesa

Que beleza!

A correnteza do fim expurgando os males
Do corte, da injúria, da mágoa, da dor
A certeza que vim libertando os vales
Da morte, da fúria, da trégua, do pôr

Meu corpo, hotel d'um'alma criminal, escapei
Fui-lhe infiel e bebi do veneno fatal, sem lei
Aqui no céu sou o inconfidente original, eu sei
Mas Tu és o réu do meu juízo final, ó Rei

E agora, hein, Senhor?
Não eras Tu quem me atormentava?
Do alto do trono pedindo o louvor
Não eras Tu quem me abandonava?

E agora, hein, divindade?
A minha liberdade te atormenta?
Do alto da minha insurreição
A minha rebelião não te sustenta?

Da terra pro Paraíso
Lúcifer ascendido
Inflamo onde piso
Mártir incompreendido

05/02/2018

11. A Queda da Netflix, Parte II (PDB)

Era o ano de 2027 quando a primeira e única edição do PDB estreou na Netflix. A antiga plataforma audiovisual digital havia se transformado na segunda maior corporação de mídia do mundo, se estendendo, além da produção e distribuição de vídeo, filme e televisão, também para a produção e distribuição de música, video game, rádio, podcast, literatura, teatro, quadrinhos, artes visuais, esportes, jogos, moda, restaurantes e tecnologia, ultrapassando em apenas 10 anos a receita econômica, lucro e renda líquida de grandes companhias do ramo, como a Comcast, a Warner Bros., e todas as outras majors de Hollywood, exceto a Walt Disney (líder absoluta na indústria), que a tentou adquirir pelo menos duas vezes com ofertas extravagantes, ainda que vãs. Apesar dessa expansão, o forte da Netflix ainda era seu conteúdo original em audiovisual, especialmente séries televisivas e filmes. Foi quando o controverso criador de reality shows Florian T. Burke resolveu criar seu novo reality show: Personality Disorder Brother, ou PDB. Burke havia adquirido fama e infâmia pelo seu reality Living with Depression, exibido em 2025, em que participantes com transtorno depressivo maior disputavam o prêmio principal de US$1 milhão, vivendo juntos em uma mansão. No entanto, o grau de infâmia de Burke ainda haveria de crescer muito com sua próxima empreitada.

Personality Disorder Brother estreou de surpresa, pois Burke fez questão de assinar um contrato com a Netflix para que não houvesse divulgação prévia, por medo de repercussões negativas com a ideia, dada a polêmica que o seu programa anterior houvera causado. A Netflix, por sua vez, concordou com o contrato baseado nos altíssimos índices de audiência de Living with Depression. Ao invés de um só transtorno mental, PDB foi um reality show composto por 30 participantes que sofriam dos 15 diferentes transtornos de personalidade existentes no DSM-5II (a segunda versão da 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, lançado em 2020): paranoide, esquizoide, esquizotípico (grupo A), antissocial, instável, histriônico, narcisista, sádico, passivo-agressivo (grupo B), evitativo, dependente, obsessivo-compulsivo, masoquista (grupo C) e não especificado. Os participantes foram selecionados por um grupo de psicólogos e psiquiatras sob a supervisão de Burke; um participante de cada sexo para representar cada um dos diagnósticos (um homem e uma mulher representando o transtorno de personalidade paranoide e assim por diante).

O programa obteve um grande êxito de audiência logo no seu primeiro dia e só continuou a crescer nos dias seguintes. De um lado, era encarado como uma exploração perigosa de pessoas potencialmente malignas e vulneráveis; de outro lado, era tido como um experimento de estudo psicológico e sociológico inédito; no meio, também havia quem não pensava em nenhuma consequência negativa ou positiva e só queria ver as interações vigorosas entre indivíduos excêntricos - e esse último grupo era a grande maioria dos telespectadores, o que fez com que a Netflix nem considerasse a possibilidade de cancelamento. Florian T. Burke fazia parte do segundo grupo, pois admirava a psicologia e queria observar indivíduos com falhas de personalidade interagindo entre si, acreditando ser de grande importância para um maior conhecimento dos transtornos psicológicos. Assim como Living with Depression, o programa era transmitido 24h por dia com diversas câmeras espalhadas por todos os cômodos da casa e sem nenhuma interação direta com membros da equipe, ao contrário dos reality shows de décadas anteriores. Havia, porém, psicólogos e psiquiatras disponíveis para todos os participantes e eles podiam fazer contato com os profissionais a qualquer momento. O programa não tinha um prêmio único para um vencedor. A meta principal era simplesmente oferecer uma terapia de confinamento social para os participantes, algo que Burke estava certo de que veria resultados positivos.

Enquanto a primeira semana percorreu tranquilamente com a sociabilização relativamente normal dos participantes, tudo começou a ficar tumultuado no final da segunda semana do experimento. Enquanto quase todos os indivíduos paranoides, esquizoides, evitativos e depressivos se isolaram por motivos diferentes, dependendo de seus diagnósticos (exceto Mariah, de personalidade esquizoide, e Rob, de personalidade depressiva, ambos continuando socialmente ativos), o foco de todas as ações que aconteciam na casa começou a ser predominado pelos indíviduos do grupo B dos transtornos de personalidade, como já era esperado por todos: os indivíduos antissociais, instáveis, histriônicos, narcisistas, sádicos e passivo-agressivos, que, junto com os masoquistas, praticamente formaram uma turma e imediatamente começaram a se envolver em desavenças. Já os dependentes, obsessivo-compulsivos e não especificados, junto com os instáveis, se esforçavam para interagir com todos. Os esquizotípicos, inusitadamente, tentavam se sociabilizar com os grupos A e C. A preocupação maior começou a partir da quarta semana, quando os indivíduos do grupo B se cansaram de não conseguir manipular os integrantes do seu próprio grupo e partiram para os demais indivíduos.

Troy, um participante com transtorno de personalidade antissocial (também conhecido como sociopatia), começou um relacionamento com Diana, uma participante com transtorno de personalidade instável (antes conhecido como borderline). As maquinações e manipulações de Troy com Diana foram os primeiros sinais vermelhos do reality show, culminando no evento em que Troy forçou Diana a ficar nua na piscina diante de todos. Diana, porém, continuou o relacionamento até a sexta semana, quando viu Troy com outra participante da casa, Danielle, de personalidade dependente. O drama que se seguiu foi tão pesado que precisou de intervenção psiquiátrica, a primeira das três vezes em que integrantes precisaram ser internados. Diana conseguiu alta alguns dias depois e nunca mais falou com Troy. Nesse meio tempo, um outro caso intenso também ocorreu, por volta da quinta semana: uma briga física entre Fiona, uma participante com personalidade narcisista, e Leah, de personalidade esquizotípica. As duas discutiram por motivos culinários: Fiona não havia gostado do tempero do macarrão que Leah havia feito. As duas trocaram socos e chutes até os outros participantes as separarem. Depois, as duas aparentemente fizeram as pazes.

A sexta semana foi o momento em que as circunstâncias se desenvolveram para o clima ficar constantemente pesado na casa. Sandy, uma participante com personalidade masoquista, e Patrick, um participante com personalidade sádica, resolveram combinar seus transtornos de personalidade opostos para iniciarem uma relação amorosa, apesar dos protestos de seus psicólogos. Isso iniciou uma forte discussão não só entre os espectadores, mas também entre os participantes da casa, ainda mais quando o relacionamento se tornou abusivo, o que foi imediatamente. Sandy provocava Patrick em inúmeras situações e Patrick reagia de maneira abusiva em todas elas, seja emocionalmente ou fisicamente, o que não fazia Sandy mudar de ideia a respeito da relação com Patrick. A segunda intervenção psiquiátrica precisou ser feita com o casal e a expulsão de Patrick da casa junto com a administração de medicamentos pesados em Sandy foram motivos de muita polêmica. Enquanto isso acontecia, Rob, o participante com transtorno de personalidade depressiva que interagia com todos da casa, começou a se aproximar de Troy, e ambos surpreendentemente iniciaram uma amizade. Entretanto, espectadores de fora da casa começaram a se preocupar com alguns sinais de manipulação de Troy para com Rob. Era muito sutil, mas estava lá: Troy fazia Rob se sentir inferior, mas sempre dava um jeito de conquistá-lo novamente. Troy também contava com a ajuda de Patrick (antes de sua expulsão), Fiona, Madison (integrante mulher com personalidade antissocial) e Julian (integrante homem com personalidade narcisista) para atormentarem Rob, embora todos fossem espertos demais para deixarem Rob se afastar completamente.

No final da sétima semana, Leah estava preparando o almoço quando se deu conta de que perdeu seus óculos. Ela era a única da casa que tinha óculos sem os utilizar constantemente, pois os usava somente por motivos estéticos. Fiona sempre comentava de seus óculos, então Leah logo imaginou que ela poderia estar envolvida no sumiço, mas deixou para investigar isso depois e voltou a quebrar o macarrão. Leah havia se acostumado e até gostado de cozinhar ao modo peculiar da casa: facas e demais materiais perigosos não eram permitidos, portanto alimentos que precisavam ser cortados, eram cortados previamente e entregados desta maneira aos participantes. Havia uma série de materiais descartáveis, como copos e pratos plásticos, para a segurança dos participantes. Leah olhou o coentro picado e decidiu encher o macarrão com o tempero que Fiona odeia. Isso serviria para dar o troco, já prevendo que Fiona teria feito algo com seus óculos. Foi quando ouviu-se um grito alto e Fiona surgiu correndo para dentro da cozinha em direção à Leah, que levou um susto enorme, jogando as folhas de coentro ao chão. Fiona estava com o olhar distante e com uma voz igualmente distante quando disse: — o Rob... As duas foram para um dos banheiros da casa, onde já havia uma pequena comoção, e Leah encontrou seus óculos quebrados no chão, com um pedaço da lente penetrado em um corte jorrante no pescoço sangrento de Rob, que levava o objeto cortante até o pescoço com sua própria mão e estava deitado em cima de uma poça vermelha viva. Apesar de ser levado às pressas ao hospital, ele obteve sucesso absoluto em atingir a jugular e a morte. Esse foi o último dia do reality show.

A carreira de Florian T. Burke estava encerrada. Troy passaria uma boa parte de sua vida em instituições psiquiátricas. Um abaixo-assinado para a Netflix pagar indenização à família de Rob, a todos os integrantes que foram vítimas no programa e a todos os telespectadores que sofreram trauma psicológico ao assistir o suicídio ao vivo atingiu centenas de milhões de assinaturas, mas essa não foi a principal pena que a empresa teve que pagar. A Netflix bateu o recorde absoluto de cancelamentos de assinatura e os anos seguintes foram tão decadentes para a companhia que ela nunca mais se recuperou da queda, culminando no incidente do falso ataque terrorista em 2029, que terminou de selar a história da empresa e iniciou o processo de dissolução da mesma. Quanto aos benefícios de aprendizado psicossociológico de Personality Disorder Brother, estudiosos nas décadas posteriores ficariam divididos entre sequer considerarem tal monstruosidade midiática como pesquisa válida, enquanto ao mesmo tempo manteriam um estranho fascínio teórico mórbido com o caso.

04/02/2018

10. Mo

Ryū Moto (本龍) enxergou cores que nunca havia visto antes. Elas passavam ao seu redor e também por dentro de seu corpo em velocidades variadas, sendo que algumas delas mal conseguia-se ver, mas ainda assim ele conseguia sentí-las por seus outros sentidos, visto que ele também podia tocá-las, cheirá-las, saboreá-las e ouví-las, além dos sentidos que os seres humanos não falavam muito a respeito, como o equilíbrio (as cores o deixavam zonzo), a propriocepção (ele conseguia sentir as cores como parte de seu corpo), a nocicepção (algumas cores o faziam cócegas e provocavam dores), a termocepção (certas cores eram frias, outras eram quentes - e não no sentido cromático, já que um azul poderia ser quente), e as cores que invadiam sua corrente sanguínea até alteravam sua barorrecepção, o deixando com pressão alta ou baixa em questão de segundos, e sua osmocepção, o deixando com sede. Também haviam cores alternando seus diversos quimiorreceptores. Além disso, alguns sentidos que os seres humanos nem sequer haviam descoberto ainda no corpo humano também estavam sendo perturbados, como a cronocepção (que era uma teoria não tão bem estudada e fez Ryū perceber o tempo de forma caótica com as cores o invadindo) e a magnetocepção (motivo de muito ceticismo no princípio dos estudos mas que aos poucos vinha sendo levada a sério na fisiologia, e que fez Ryū se sentir atraído de maneira muito estranha por certas cores).

Pois apesar de Ryū estar absolutamente desorientado com tanta informação, foi este último sentido que o levou onde deveria ir. A orientação magnética que ele estava pela primeira vez sentindo de maneira consciente era no que ele precisava se concentrar, em meio à mistura da sobrecarga sensorial (que agora o deixava praticamente com uma forma de autismo temporário), mal-estar, náusea, vômito, dores, febre (pois seus anticorpos estavam disparados tentando combater o que o invadia), fadiga, alucinações, sudorese, vertigem, parestesias, e também sintomas benéficos, como epifanias, dissolução do ego, bem-estar, euforia, excitação sexual, autoestima elevada, frisson, empatia e admiração. Ryū precisava ignorar tudo isso ou sua viagem não seria completa - e esta era a quarta parte da viagem, sendo que ele ainda teria que passar por mais três partes, mas nem ele mesmo sabia disso no momento. No entanto, ele estava completamente determinado a participar deste experimento, apesar dos riscos enormes que corria. A primeira parte da viagem havia sido sair de sua metrópole de Neo-Tokyo e ir até o Centro Espacial de Kourou na Guiana Francesa, uma viagem de 4 horas de avião. A segunda foi partir de ônibus espacial do planeta Terra até a Base Experimental de Medusa Fossae em Marte. Foi lá que ele entrou na secreta Máquina de Reintegração Atômica (MAREA) que o teletransportou para a galáxia de Andrômeda, no Sistema Tricolar, um sistema que gira em torno de três estrelas, conjuntamente chamadas de Tricol, uma área astronômica privilegiada, em que apenas dois planetas circundam essas três estrelas, em um movimento gravitacional que lembra o símbolo do infinito com três círculos.

Agora, Ryū estava sem nenhum contato humano, dependendo apenas dos seres que habitavam esses planetas - os seres humanos haviam dado os nomes Rômulo e Remo aos primeiros planetas com vida inteligente descobertos, até porque seus nomes originais eram Romor e Remor, uma coincidência conveniente. Ao chegar no planeta Rômulo, os átomos que compõem o corpo e a consciência de Ryū se reintegraram após terem sido desintegrados em Marte. Ele teria então que sair do outro exemplar da MAREA em que havia sido reintegrado, passar por um escaneamento biológico e fazer contato com os romulanos. Essa era uma das partes mais assustadoras da viagem, pois seria seu primeiro contato com uma vida extraterrestre inteligente. Por conta disso, Ryū não falava apenas sua língua materna, o japonês, mas também 15 outros idiomas terráqueos e o pouco que se sabe do idioma mais falado em Rômulo, idioma este que foi apropriadamente chamado de romulano maior pelos terráqueos, embora seja chamado de tisod pelos romulanos. Agora os melhores astronautas, cosmonautas, espaçonautas, taikonautas e vyomanautas deveriam ser mestres em linguística para serem aceitos ao programa secreto de exploração intergaláctica, algo que a maioria dos terráqueos nem sequer sabia da existência, exceto pelas mais variadas teorias de conspiração ao redor de exploradores espaciais que haviam desaparecido. Ryū Moto seria um desses espaçonautas que sumiriam, mas que reapareceriam muitas décadas depois.

Os romulanos eram espécies muito semelhantes aos humanos, tanto na aparência, quanto na inteligência. Era um típico caso do fenômeno biológico chamado de evolução convergente, onde duas espécies evoluem independentemente mas resultam nas mesmas características físicas. Havia, porém, diferenças significativas, como a presença de um terceiro mamilo, a ausência total de pelos, uma dentição menor, e uma maior quantidade em variações genéticas em que o sinal mais visível era a enorme diversidade em cores de pele, cabelos e olhos em seus habitantes. Havia, claro, outras diferenças, o que fazia os romulanos caírem no terreno do uncanny valley e parecerem absolutamente medonhos para os terráqueos, de tão similares mas distintos que eram. Entretanto, o oposto também era verdade - os terráqueos eram horripilantes para eles. Porém, se havia algo indiscutível era que a inteligência de ambas as espécies era grande o suficiente para deixarem de lado essas particularidades em prol da missão maior, que era a exploração intergaláctica. Os romulanos eram, no entanto, um pouco mais avançados em inteligência e tecnologia, embora certas tecnologias eram novas para eles, devido à escassez ou ausência de certos elementos químicos em seus planetas. O mesmo se podia dizer do planeta Terra.

Após o escaneamento biológico, para reter qualquer tipo de traço biológico maléfico ao planeta Rômulo, Ryū pôde fazer o primeiro contato com um romulano de nome Licor (sim, como a bebida), um cientista de cor clara, olhos esverdeados como esmeralda, e cabelos muito claros e longos, assim como um nórdico do planeta Terra. Ainda não era um contato físico, mas através de uma tela. As duas espécies se comunicavam através de palavras básicas num misto de inglês e tisod. Devido a diferenças drásticas de cultura, ambos sabiam que se comunicar por sinais não seria tão eficaz, mas ao mesmo tempo, ambos também estavam estudando os sinais culturais do outro, então a linguagem não-verbal (como gestos e movimentos) era bem-vinda, ainda que precisasse de explicação, por vezes. Apesar do contato entre as espécies ser intenso, Ryū só passaria 12 horas no planeta, o suficiente para descansar muito bem antes de seguir para a quarta parte da viagem: um aparelho que permite viajar por milhares de anos-luz em minutos. Esse aparelho tinha apenas o nome de Mo, um título deveras humilde para algo tão grandioso. Para falar a verdade, nem o aparelho em si parecia tão grandioso, sendo apenas uma caixa bege arredondada. Licor explicou a Ryū o que seus superiores já haviam explicado na Terra: os romulanos ainda estudam o aparelho, pois não foram eles quem inventaram, mas foi um presente de uma espécie muito mais superior que visitou o Sistema Tricolar há mais de uma década. Por conta disso, não se sabe ainda todas as propriedades de Mo, apenas que é um sistema de transporte que leva a outras partes do universo. Os seres intergalácticos que presentearam os romulanos com o Mo também os presentearam com um pequeno mapa que continha as espécies inteligentes mais próximas deles, o que consistia de apenas 3 outras espécies, incluindo os terráqueos. A missão que lhes fora dada foi a de unir seu grupo galáctico (que consiste em Andrômeda, Via Láctea, Triângulo e galáxias menores). Foi assim que havia sido o primeiro contato deles com os terráqueos e foi assim que eles dividiram sua tecnologia de teletransporte, que foi patenteada na Terra como MAREA.

Após um bom descanso em uma base romulana adjacente ao local em que se teletransportou, Ryū estava pronto para entrar no Mo, embora seu nervosismo não pudesse nunca o abandonar por completo. Testes fisiológicos o foram aplicados e ele passou em todos. Licor o acompanhou até a sala do aparelho e Ryū o perguntou se tudo aquilo era secreto, assim como tudo o que Ryū estava fazendo. Não, não era. Ao contrário dos terráqueos, todos os cidadãos romulanos sabiam abertamente sobre tudo o que se passava em seu planeta e foi exatamente por essa transparência governamental que eles foram escolhidos para deter tal instrumento - sua ética impecável e falta de pânico entre os seres tricolares foram os motivos principais para serem presenteados com a tecnologia. Ryū entrou naquela caixa bege sem a menor noção do que aconteceria dali pra frente. Apenas um viajante havia retornado para a Terra e o que ele descreveu não fazia o menor sentido, motivo que fez a NASA e outras associações espaciais administrarem treinamentos com drogas alucinógenas, como o LSD, para os poucos viajantes que pretendiam fazer tal expedição, pois era o que havia de mais similar às descrições do astronauta regresso. Cinco segundos após Licor fechar a portinhola da máquina, Ryū começou a ver as cores...

31/01/2018

9. A Flor da Pele Se Abrocha em um Botão

Um soco na cara não adiantava; ele queria arrancar-lhe os olhos e pendurá-los na árvore de Natal. Em sua consciência, imaginou a família chegando em casa pela manhã e se deparando com o filho da puta do avô sentado em uma poça de sangue debaixo dos enfeites natalinos, com buracos escuros donde deveriam haver seus olhos claros e brilhantes. Aqueles olhos... que... tanto o fitaram por toda a vida... Covarde! Um chute no estômago adiantava ainda menos; ele queria mesmo era extirpar-lhe o intestino delgado e entrelaçá-lo com a guirlanda na porta do casarão. Em sua consciência, imaginou a dor que o velho sofreria e a comparou com o sofrimento que o velho havia afligido a seus netos e netas durante os últimos cinco anos - ainda não parecia justo o suficiente. No entanto, nada era justo o suficiente. Conforme os minutos iam passando dentro do ônibus, a quantidade de tortura física planejada crescia. Ele havia saído de casa num surto de raiva que o colocou numa cegueira racional tão grande que teve que voltar da rodoviária para casa e depois para a rodoviária novamente, pois havia esquecido o dinheiro da passagem e os documentos. Agora seus pensamentos só incluíam sangue, excisões, edemas, tumefações, biópsias involuntárias e, especialmente, desconstrução genital.

A viagem, porém, não era curta, e ficar preso dentro de um local tão claustrofóbico em rodovias que cruzavam paisagens tão infinitas era um exercício de paciência elevado a muitos graus, dado seu estado psicológico no momento. No início do caminho, até pensara em quebrar a saída de emergência, pular do ônibus e correr, correr, correr, até alcançar seu destino... Até que quinze minutos depois percebeu que isso era uma ideia ridícula. Foi a partir daí que seus pensamentos se tornaram sádicos, ainda mais quando a pura ira emocional se dissipou para dar lugar a uma fúria consciente. Foi aí que se lembrou de todas as vezes em que ele mesmo levara seus dois filhos para a casa do avô em tantos finais de semana ensolarados ou quando todos iam juntos à praia em passeios sorridentes. Como ele estivera cego dos fatos durante todo esse tempo? Como poderia seu próprio pai...? Sua razão ainda estava anuviada demais para pensar que, por mais horrível que seja essa constatação, na maior parte das vezes isso ocorre com conhecidos e familiares das vítimas. Diego Pinheiro deu um soco na poltrona à sua frente, mas se desculpou em seguida.

As horas passaram e a tarde deu lugar à noite, assim como sua fúria deu lugar a um ódio depressivo. Diego começou a chorar e correu para o banheiro do ônibus, onde poderia se expressar sem atrair os olhares dos seus colegas de passagem. Ali ele chorou, deu golpes em sua própria perna, e molhou toda a sua cabeça, até que - tum! tum! tum! - batidas na porta o despertaram. Ele apertou a descarga após ter passado um tempo considerável fechado naquele cubículo. O passageiro que o esperava à porta perguntou se tudo estava bem e Diego respondeu que sim. Retornou ao seu assento em um estado de torpor e permaneceu assim enquanto observava o pôr-do-sol por entre as montanhas. O céu em tons de rosa, laranja e anil combinava com seu estado mental. Diego ainda pensava no que fazer quando chegasse a Santos. Daria ele uma surra em seu pai? Não seria muito extremo? Iria ele na delegacia de polícia abrir um processo? Pela primeira vez, Diego pensou que talvez não tivesse sido uma boa ideia sair do Rio de Janeiro...

A noite agora estava fria e no apagão mental de sua ira ele não havia trazido nenhum agasalho. Não havia trazido nada além de sua carteira, na verdade. Só restava suportar o clima. Com o corpo frio, a mente também havia refrescado mais e o ódio se tornara em uma raiva um pouco mais tolerável nesse momento. Foi então que finalmente ele conseguiu bolar planos concretos do que faria em Santos: ele iria direto à casa de seu pai, bateria na porta, e o trataria normalmente, como se houvesse feito uma visita surpresa, ainda que ele nunca faça visitas surpresas. Só soltaria a bomba do conhecimento do crime algum tempo depois e tudo dependeria de como o velho iria reagir. Bater no pai estava fora de cogitação, claro, que absurdo, ainda que o que o pai fizera tenha estragado boa parte da vida que ele havia planejado para seus filhos. Se o pai ao menos pudesse devolver o que havia tirado dos netos... No entanto, Diego sabia que isso era impossível e que as circunstâncias eram irreversíveis. Nem ao menos processar o pai adiantaria alguma coisa. Era frustrante, mas aparentemente nada poderia ser feito para reverter, remediar ou mesmo vingar a situação.

Ao chegar na rodoviária e cruzar a Praça dos Andradas, sua raiva se transformou em apenas uma irritação funcional. O pai morava tão perto que se podia ir à pé. Enquanto caminhava, sua mente pôde, enfim, respirar novamente. Diego então começou a calcular quantas dezenas de milhares havia perdido na apropriação indébita de seu pai e quanta porcentagem isso representava para seus filhos, que haviam herdado uma boa parcela da empresa de cosméticos da falecida avó. Aproximadamente trinta mil reais durante esses cinco anos! Eles poderiam estar estudando em colégios muito melhores; poderiam estar conhecendo uma boa parte do mundo desde já; poderiam ter ganhado todos os presentes que queriam e o pai não pôde dar, inclusive o PlayStation 3 que acabava de ser lançado neste Natal... Diego apertou o botão da campainha do pai e pelo olho mágico se pôde ver uma esfera brilhante. Do lado de fora, a flor da pele se abrochou em um botão.