14/09/2018

15. Clair

clair network


layers: 10


layer 1: reality network
layer 2: domain
layer 3: multiverse
layer 4: universe
layer 5: filament
layer 6: supercluster
layer 7: galaxy group
layer 8: galaxy
layer 9: system
layer 10:
 object


domains: 3


domain 1: tremolo
domain 2: glider
domain 3: ecstasy


time nails: on
reversibility: off
fate dice: on
domain transit: on
cyan apple
s: on

13/09/2018

14. No Jardim de Getsêmani

Os minúsculos pés descalços que corriam por entre as araucárias não previam que a terra fofa estaria suficiente úmida pelo Ribeirão dos Padilhas. O escorregão foi inevitável. A cara de bolacha se esbofeteou no barro como uma bola de golfe enterrada num bunker. Outras crianças que perseguiam esta também caíram, mas em risos. A alguns metros dali, adultos que capinavam o terreno para o plantio de hibiscos também sorriram uns para os outros enquanto passavam uma taça de mate para todos beberem. Todos vestiam mantos, alguns de seda, outros de algodão fino. Um cheiro de terra molhada ocupava o ambiente idílico, até porque o vento fazia desviar a fumaça de sândalo aceso ao céu aberto. As crianças se levantaram e continuaram sua correria. Dailan estava com o rosto completamente enlamaçado, mas não deixou a brincadeira fácil para seus amigos: eles nunca o pegariam se ele subisse numa árvore; ninguém consegue escalar árvores como ele. Se não aproveitaram a chance enquanto ele caiu, nunca mais vão conseguir apanhá-lo.

O som de um helicóptero revoando a comunidade se tornou alto enquanto Dailan se infiltrava em meio à floresta. "Libélula de ferro", eles chamavam aquela máquina voadora barulhenta. Depois de muito correr, ele escalou um pinheiro de tamanho médio, um pinheiro que ele já havia escalado antes e já sabia de todos os segredos de seu tronco, onde pisar e onde agarrar, ascendendo a um local bem alto, onde todos os galhos se estendiam para fora do corpo da árvore, mas antes de chegar no topo. Acima dele, havia apenas o cabelo verde da folhagem vegetal, que cobria a araucária como uma peruca enrolada em bobes. Dailan agora descansava sentado em um galho. Não ouviu mais o som dos seus amigos, não ouviu mais o som da libélula de ferro, nem dos pássaros ou do riacho, que agora estava longe. Começava a ouvir, porém, o som dos carros, dos ônibus, das máquinas, o murmurinho da civilização. Era fim de tarde. O pequeno olhou para o horizonte e ali no alto conseguia enxergar o que havia além do grande muro e da porteira: todas as fontes daqueles sons - uma grande avenida, o tráfego dos automóveis, pessoas com roupas estranhas passeando pelas calçadas... O que o mais chamou a atenção foi ver um rapaz andando de bicicleta lentamente, parando no meio da ciclovia e fixando o olhar em direção a ele. Era impossível que esse rapaz poderia estar vendo ele ali, mas Dailan se arrepiou ao parecer ter sido descoberto. Tentou fazer um aceno, mas o rapaz desviou o olhar e continuou a sua pedalada.

O sol se mergulhava, então o menino resolveu descer de sua árvore. O barro em seu rosto já ficara seco. Com muito cuidado, o pequenino fez sua descida e caminhou calmamente em direção ao seu vilarejo. O silêncio era atípico. O que também era atípico eram as poças vermelhas que ele encontrou ao passar pela plantação de hibiscos e o cheiro de morte que agora suplantava o sândalo e o barro. Foi quando, mais em frente, ao sair da trilha e chegar no seu vilarejo, o menino avistou a libélula de ferro pousada na clareira e os corpos de todas as pessoas que ele conhecia empilhados do lado da máquina voadora. Dailan rapidamente se escondeu em meio às árvores. Homens uniformizados saíam e entravam nas moradas, carregando todos os humildes pertences do vilarejo para fora: roupas, comida, móveis, brinquedos, tudo o que também lhe pertencia, pois tudo era de todos. O menino quis correr, quis enfrentar aqueles homens, quis recuperar suas coisas, e, acima de tudo, quis pular para o colo de sua mãe, de seu pai e de sua irmã, que agora possivelmente estavam em meio à pirâmide de cadáveres. De seus olhos úmidos escorria uma gota salgada, limpando apenas meio caminho da terra incrustada em sua bochecha, até pausar na metade do rosto. Uma outra lágrima fazia o mesmo do outro lado de sua face. As segundas lágrimas de cada olho foram mais persistentes, deslizando rapidamente pela via traçada pelas primeiras gotas e se unindo àquelas para completarem o caminho. Ainda não foram suficientes. Com as terceiras lágrimas, a terra cedeu, e agora duas linhas rosadas cortavam o seu rosto inteiramente, dos cantos dos olhos aos cantos da boca, e as gotas que caíam no chão eram da cor vermelha do solo em que Dailan se criou, unindo barro com barro.

Então, ele fugiu para a floresta.