Era o ano de 2027 quando a primeira e única edição do
PDB estreou na Netflix. A antiga plataforma audiovisual digital havia se transformado na segunda maior corporação de mídia do mundo, se estendendo, além da produção e distribuição de vídeo, filme e televisão, também para a produção e distribuição de música, video game, rádio, podcast, literatura, teatro, quadrinhos, artes visuais, esportes, jogos, moda, restaurantes e tecnologia, ultrapassando em apenas 10 anos a receita econômica, lucro e renda líquida de grandes companhias do ramo, como a Comcast, a Warner Bros., e todas as outras majors
de Hollywood, exceto a Walt Disney (líder absoluta na indústria), que a tentou adquirir pelo menos duas vezes com ofertas extravagantes, ainda que vãs. Apesar dessa expansão, o forte da Netflix ainda era seu conteúdo original em audiovisual, especialmente séries televisivas e filmes. Foi quando o controverso criador de reality shows Florian T. Burke resolveu criar seu novo reality show:
Personality Disorder Brother, ou
PDB. Burke havia adquirido fama e infâmia pelo seu reality
Living with Depression, exibido em 2025, em que participantes com transtorno depressivo maior disputavam o prêmio principal de US$1 milhão, vivendo juntos em uma mansão. No entanto, o grau de infâmia de Burke ainda haveria de crescer muito com sua próxima empreitada.
Personality Disorder Brother estreou de surpresa, pois Burke fez questão de assinar um contrato com a Netflix para que não houvesse divulgação prévia, por medo de repercussões negativas com a ideia, dada a polêmica que o seu programa anterior houvera causado. A Netflix, por sua vez, concordou com o contrato baseado nos altíssimos índices de audiência de
Living with Depression. Ao invés de um só transtorno mental,
PDB foi um reality show composto por 30 participantes que sofriam dos 15 diferentes transtornos de personalidade existentes no DSM-5II (a segunda versão da 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, lançado em 2020): paranoide, esquizoide, esquizotípico (grupo A), antissocial, instável, histriônico, narcisista, sádico, passivo-agressivo (grupo B), evitativo, dependente, obsessivo-compulsivo, masoquista (grupo C) e não especificado. Os participantes foram selecionados por um grupo de psicólogos e psiquiatras sob a supervisão de Burke; um participante de cada sexo para representar cada um dos diagnósticos (um homem e uma mulher representando o transtorno de personalidade paranoide e assim por diante).
O programa obteve um grande êxito de audiência logo no seu primeiro dia e só continuou a crescer nos dias seguintes. De um lado, era encarado como uma exploração perigosa de pessoas potencialmente malignas e vulneráveis; de outro lado, era tido como um experimento de estudo psicológico e sociológico inédito; no meio, também havia quem não pensava em nenhuma consequência negativa ou positiva e só queria ver as interações vigorosas entre indivíduos excêntricos - e esse último grupo era a grande maioria dos telespectadores, o que fez com que a Netflix nem considerasse a possibilidade de cancelamento. Florian T. Burke fazia parte do segundo grupo, pois admirava a psicologia e queria observar indivíduos com falhas de personalidade interagindo entre si, acreditando ser de grande importância para um maior conhecimento dos transtornos psicológicos. Assim como
Living with Depression, o programa era transmitido 24h por dia com diversas câmeras espalhadas por todos os cômodos da casa e sem nenhuma interação direta com membros da equipe, ao contrário dos reality shows de décadas anteriores. Havia, porém, psicólogos e psiquiatras disponíveis para todos os participantes e eles podiam fazer contato com os profissionais a qualquer momento. O programa não tinha um prêmio único para um vencedor. A meta principal era simplesmente oferecer uma terapia de confinamento social para os participantes, algo que Burke estava certo de que veria resultados positivos.
Enquanto a primeira semana percorreu tranquilamente com a sociabilização relativamente normal dos participantes, tudo começou a ficar tumultuado no final da segunda semana do experimento. Enquanto quase todos os indivíduos paranoides, esquizoides, evitativos e depressivos se isolaram por motivos diferentes, dependendo de seus diagnósticos (exceto Mariah, de personalidade esquizoide, e Rob, de personalidade depressiva, ambos continuando socialmente ativos), o foco de todas as ações que aconteciam na casa começou a ser predominado pelos indíviduos do grupo B dos transtornos de personalidade, como já era esperado por todos: os indivíduos antissociais, instáveis, histriônicos, narcisistas, sádicos e passivo-agressivos, que, junto com os masoquistas, praticamente formaram uma turma e imediatamente começaram a se envolver em desavenças. Já os dependentes, obsessivo-compulsivos e não especificados, junto com os instáveis, se esforçavam para interagir com todos. Os esquizotípicos, inusitadamente, tentavam se sociabilizar com os grupos A e C. A preocupação maior começou a partir da quarta semana, quando os indivíduos do grupo B se cansaram de não conseguir manipular os integrantes do seu próprio grupo e partiram para os demais indivíduos.
Troy, um participante com transtorno de personalidade antissocial (também conhecido como sociopatia), começou um relacionamento com Diana, uma participante com transtorno de personalidade instável (antes conhecido como
borderline). As maquinações e manipulações de Troy com Diana foram os primeiros sinais vermelhos do reality show, culminando no evento em que Troy forçou Diana a ficar nua na piscina diante de todos. Diana, porém, continuou o relacionamento até a sexta semana, quando viu Troy com outra participante da casa, Danielle, de personalidade dependente. O drama que se seguiu foi tão pesado que precisou de intervenção psiquiátrica, a primeira das três vezes em que integrantes precisaram ser internados. Diana conseguiu alta alguns dias depois e nunca mais falou com Troy. Nesse meio tempo, um outro caso intenso também ocorreu, por volta da quinta semana: uma briga física entre Fiona, uma participante com personalidade narcisista, e Leah, de personalidade esquizotípica. As duas discutiram por motivos culinários: Fiona não havia gostado do tempero do macarrão que Leah havia feito. As duas trocaram socos e chutes até os outros participantes as separarem. Depois, as duas aparentemente fizeram as pazes.
A sexta semana foi o momento em que as circunstâncias se desenvolveram para o clima ficar constantemente pesado na casa. Sandy, uma participante com personalidade masoquista, e Patrick, um participante com personalidade sádica, resolveram combinar seus transtornos de personalidade opostos para iniciarem uma relação amorosa, apesar dos protestos de seus psicólogos. Isso iniciou uma forte discussão não só entre os espectadores, mas também entre os participantes da casa, ainda mais quando o relacionamento se tornou abusivo, o que foi imediatamente. Sandy provocava Patrick em inúmeras situações e Patrick reagia de maneira abusiva em todas elas, seja emocionalmente ou fisicamente, o que não fazia Sandy mudar de ideia a respeito da relação com Patrick. A segunda intervenção psiquiátrica precisou ser feita com o casal e a expulsão de Patrick da casa junto com a administração de medicamentos pesados em Sandy foram motivos de muita polêmica. Enquanto isso acontecia, Rob, o participante com transtorno de personalidade depressiva que interagia com todos da casa, começou a se aproximar de Troy, e ambos surpreendentemente iniciaram uma amizade. Entretanto, espectadores de fora da casa começaram a se preocupar com alguns sinais de manipulação de Troy para com Rob. Era muito sutil, mas estava lá: Troy fazia Rob se sentir inferior, mas sempre dava um jeito de conquistá-lo novamente. Troy também contava com a ajuda de Patrick (antes de sua expulsão), Fiona, Madison (integrante mulher com personalidade antissocial) e Julian (integrante homem com personalidade narcisista) para atormentarem Rob, embora todos fossem espertos demais para deixarem Rob se afastar completamente.
No final da sétima semana, Leah estava preparando o almoço quando se deu conta de que perdeu seus óculos. Ela era a única da casa que tinha óculos sem os utilizar constantemente, pois os usava somente por motivos estéticos. Fiona sempre comentava de seus óculos, então Leah logo imaginou que ela poderia estar envolvida no sumiço, mas deixou para investigar isso depois e voltou a quebrar o macarrão. Leah havia se acostumado e até gostado de cozinhar ao modo peculiar da casa: facas e demais materiais perigosos não eram permitidos, portanto alimentos que precisavam ser cortados, eram cortados previamente e entregados desta maneira aos participantes. Havia uma série de materiais descartáveis, como copos e pratos plásticos, para a segurança dos participantes. Leah olhou o coentro picado e decidiu encher o macarrão com o tempero que Fiona odeia. Isso serviria para dar o troco, já prevendo que Fiona teria feito algo com seus óculos. Foi quando ouviu-se um grito alto e Fiona surgiu correndo para dentro da cozinha em direção à Leah, que levou um susto enorme, jogando as folhas de coentro ao chão. Fiona estava com o olhar distante e com uma voz igualmente distante quando disse: — o Rob... As duas foram para um dos banheiros da casa, onde já havia uma pequena comoção, e Leah encontrou seus óculos quebrados no chão, com um pedaço da lente penetrado em um corte jorrante no pescoço sangrento de Rob, que levava o objeto cortante até o pescoço com sua própria mão e estava deitado em cima de uma poça vermelha viva. Apesar de ser levado às pressas ao hospital, ele obteve sucesso absoluto em atingir a jugular e a morte. Esse foi o último dia do reality show.
A carreira de Florian T. Burke estava encerrada. Troy passaria uma boa parte de sua vida em instituições psiquiátricas. Um abaixo-assinado para a Netflix pagar indenização à família de Rob, a todos os integrantes que foram vítimas no programa e a todos os telespectadores que sofreram trauma psicológico ao assistir o suicídio ao vivo atingiu centenas de milhões de assinaturas, mas essa não foi a principal pena que a empresa teve que pagar. A Netflix bateu o recorde absoluto de cancelamentos de assinatura e os anos seguintes foram tão decadentes para a companhia que ela nunca mais se recuperou da queda, culminando no incidente do falso ataque terrorista em 2029, que terminou de selar a história da empresa e iniciou o processo de dissolução da mesma. Quanto aos benefícios de aprendizado psicossociológico de
Personality Disorder Brother, estudiosos nas décadas posteriores ficariam divididos entre sequer considerarem tal monstruosidade midiática como pesquisa válida, enquanto ao mesmo tempo manteriam um estranho fascínio teórico mórbido com o caso.