04/02/2018

10. Mo

Ryū Moto (本龍) enxergou cores que nunca havia visto antes. Elas passavam ao seu redor e também por dentro de seu corpo em velocidades variadas, sendo que algumas delas mal conseguia-se ver, mas ainda assim ele conseguia sentí-las por seus outros sentidos, visto que ele também podia tocá-las, cheirá-las, saboreá-las e ouví-las, além dos sentidos que os seres humanos não falavam muito a respeito, como o equilíbrio (as cores o deixavam zonzo), a propriocepção (ele conseguia sentir as cores como parte de seu corpo), a nocicepção (algumas cores o faziam cócegas e provocavam dores), a termocepção (certas cores eram frias, outras eram quentes - e não no sentido cromático, já que um azul poderia ser quente), e as cores que invadiam sua corrente sanguínea até alteravam sua barorrecepção, o deixando com pressão alta ou baixa em questão de segundos, e sua osmocepção, o deixando com sede. Também haviam cores alternando seus diversos quimiorreceptores. Além disso, alguns sentidos que os seres humanos nem sequer haviam descoberto ainda no corpo humano também estavam sendo perturbados, como a cronocepção (que era uma teoria não tão bem estudada e fez Ryū perceber o tempo de forma caótica com as cores o invadindo) e a magnetocepção (motivo de muito ceticismo no princípio dos estudos mas que aos poucos vinha sendo levada a sério na fisiologia, e que fez Ryū se sentir atraído de maneira muito estranha por certas cores).

Pois apesar de Ryū estar absolutamente desorientado com tanta informação, foi este último sentido que o levou onde deveria ir. A orientação magnética que ele estava pela primeira vez sentindo de maneira consciente era no que ele precisava se concentrar, em meio à mistura da sobrecarga sensorial (que agora o deixava praticamente com uma forma de autismo temporário), mal-estar, náusea, vômito, dores, febre (pois seus anticorpos estavam disparados tentando combater o que o invadia), fadiga, alucinações, sudorese, vertigem, parestesias, e também sintomas benéficos, como epifanias, dissolução do ego, bem-estar, euforia, excitação sexual, autoestima elevada, frisson, empatia e admiração. Ryū precisava ignorar tudo isso ou sua viagem não seria completa - e esta era a quarta parte da viagem, sendo que ele ainda teria que passar por mais três partes, mas nem ele mesmo sabia disso no momento. No entanto, ele estava completamente determinado a participar deste experimento, apesar dos riscos enormes que corria. A primeira parte da viagem havia sido sair de sua metrópole de Neo-Tokyo e ir até o Centro Espacial de Kourou na Guiana Francesa, uma viagem de 4 horas de avião. A segunda foi partir de ônibus espacial do planeta Terra até a Base Experimental de Medusa Fossae em Marte. Foi lá que ele entrou na secreta Máquina de Reintegração Atômica (MAREA) que o teletransportou para a galáxia de Andrômeda, no Sistema Tricolar, um sistema que gira em torno de três estrelas, conjuntamente chamadas de Tricol, uma área astronômica privilegiada, em que apenas dois planetas circundam essas três estrelas, em um movimento gravitacional que lembra o símbolo do infinito com três círculos.

Agora, Ryū estava sem nenhum contato humano, dependendo apenas dos seres que habitavam esses planetas - os seres humanos haviam dado os nomes Rômulo e Remo aos primeiros planetas com vida inteligente descobertos, até porque seus nomes originais eram Romor e Remor, uma coincidência conveniente. Ao chegar no planeta Rômulo, os átomos que compõem o corpo e a consciência de Ryū se reintegraram após terem sido desintegrados em Marte. Ele teria então que sair do outro exemplar da MAREA em que havia sido reintegrado, passar por um escaneamento biológico e fazer contato com os romulanos. Essa era uma das partes mais assustadoras da viagem, pois seria seu primeiro contato com uma vida extraterrestre inteligente. Por conta disso, Ryū não falava apenas sua língua materna, o japonês, mas também 15 outros idiomas terráqueos e o pouco que se sabe do idioma mais falado em Rômulo, idioma este que foi apropriadamente chamado de romulano maior pelos terráqueos, embora seja chamado de tisod pelos romulanos. Agora os melhores astronautas, cosmonautas, espaçonautas, taikonautas e vyomanautas deveriam ser mestres em linguística para serem aceitos ao programa secreto de exploração intergaláctica, algo que a maioria dos terráqueos nem sequer sabia da existência, exceto pelas mais variadas teorias de conspiração ao redor de exploradores espaciais que haviam desaparecido. Ryū Moto seria um desses espaçonautas que sumiriam, mas que reapareceriam muitas décadas depois.

Os romulanos eram espécies muito semelhantes aos humanos, tanto na aparência, quanto na inteligência. Era um típico caso do fenômeno biológico chamado de evolução convergente, onde duas espécies evoluem independentemente mas resultam nas mesmas características físicas. Havia, porém, diferenças significativas, como a presença de um terceiro mamilo, a ausência total de pelos, uma dentição menor, e uma maior quantidade em variações genéticas em que o sinal mais visível era a enorme diversidade em cores de pele, cabelos e olhos em seus habitantes. Havia, claro, outras diferenças, o que fazia os romulanos caírem no terreno do uncanny valley e parecerem absolutamente medonhos para os terráqueos, de tão similares mas distintos que eram. Entretanto, o oposto também era verdade - os terráqueos eram horripilantes para eles. Porém, se havia algo indiscutível era que a inteligência de ambas as espécies era grande o suficiente para deixarem de lado essas particularidades em prol da missão maior, que era a exploração intergaláctica. Os romulanos eram, no entanto, um pouco mais avançados em inteligência e tecnologia, embora certas tecnologias eram novas para eles, devido à escassez ou ausência de certos elementos químicos em seus planetas. O mesmo se podia dizer do planeta Terra.

Após o escaneamento biológico, para reter qualquer tipo de traço biológico maléfico ao planeta Rômulo, Ryū pôde fazer o primeiro contato com um romulano de nome Licor (sim, como a bebida), um cientista de cor clara, olhos esverdeados como esmeralda, e cabelos muito claros e longos, assim como um nórdico do planeta Terra. Ainda não era um contato físico, mas através de uma tela. As duas espécies se comunicavam através de palavras básicas num misto de inglês e tisod. Devido a diferenças drásticas de cultura, ambos sabiam que se comunicar por sinais não seria tão eficaz, mas ao mesmo tempo, ambos também estavam estudando os sinais culturais do outro, então a linguagem não-verbal (como gestos e movimentos) era bem-vinda, ainda que precisasse de explicação, por vezes. Apesar do contato entre as espécies ser intenso, Ryū só passaria 12 horas no planeta, o suficiente para descansar muito bem antes de seguir para a quarta parte da viagem: um aparelho que permite viajar por milhares de anos-luz em minutos. Esse aparelho tinha apenas o nome de Mo, um título deveras humilde para algo tão grandioso. Para falar a verdade, nem o aparelho em si parecia tão grandioso, sendo apenas uma caixa bege arredondada. Licor explicou a Ryū o que seus superiores já haviam explicado na Terra: os romulanos ainda estudam o aparelho, pois não foram eles quem inventaram, mas foi um presente de uma espécie muito mais superior que visitou o Sistema Tricolar há mais de uma década. Por conta disso, não se sabe ainda todas as propriedades de Mo, apenas que é um sistema de transporte que leva a outras partes do universo. Os seres intergalácticos que presentearam os romulanos com o Mo também os presentearam com um pequeno mapa que continha as espécies inteligentes mais próximas deles, o que consistia de apenas 3 outras espécies, incluindo os terráqueos. A missão que lhes fora dada foi a de unir seu grupo galáctico (que consiste em Andrômeda, Via Láctea, Triângulo e galáxias menores). Foi assim que havia sido o primeiro contato deles com os terráqueos e foi assim que eles dividiram sua tecnologia de teletransporte, que foi patenteada na Terra como MAREA.

Após um bom descanso em uma base romulana adjacente ao local em que se teletransportou, Ryū estava pronto para entrar no Mo, embora seu nervosismo não pudesse nunca o abandonar por completo. Testes fisiológicos o foram aplicados e ele passou em todos. Licor o acompanhou até a sala do aparelho e Ryū o perguntou se tudo aquilo era secreto, assim como tudo o que Ryū estava fazendo. Não, não era. Ao contrário dos terráqueos, todos os cidadãos romulanos sabiam abertamente sobre tudo o que se passava em seu planeta e foi exatamente por essa transparência governamental que eles foram escolhidos para deter tal instrumento - sua ética impecável e falta de pânico entre os seres tricolares foram os motivos principais para serem presenteados com a tecnologia. Ryū entrou naquela caixa bege sem a menor noção do que aconteceria dali pra frente. Apenas um viajante havia retornado para a Terra e o que ele descreveu não fazia o menor sentido, motivo que fez a NASA e outras associações espaciais administrarem treinamentos com drogas alucinógenas, como o LSD, para os poucos viajantes que pretendiam fazer tal expedição, pois era o que havia de mais similar às descrições do astronauta regresso. Cinco segundos após Licor fechar a portinhola da máquina, Ryū começou a ver as cores...

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