31/01/2018

9. A Flor da Pele Se Abrocha em um Botão

Um soco na cara não adiantava; ele queria arrancar-lhe os olhos e pendurá-los na árvore de Natal. Em sua consciência, imaginou a família chegando em casa pela manhã e se deparando com o filho da puta do avô sentado em uma poça de sangue debaixo dos enfeites natalinos, com buracos escuros donde deveriam haver seus olhos claros e brilhantes. Aqueles olhos... que... tanto o fitaram por toda a vida... Covarde! Um chute no estômago adiantava ainda menos; ele queria mesmo era extirpar-lhe o intestino delgado e entrelaçá-lo com a guirlanda na porta do casarão. Em sua consciência, imaginou a dor que o velho sofreria e a comparou com o sofrimento que o velho havia afligido a seus netos e netas durante os últimos cinco anos - ainda não parecia justo o suficiente. No entanto, nada era justo o suficiente. Conforme os minutos iam passando dentro do ônibus, a quantidade de tortura física planejada crescia. Ele havia saído de casa num surto de raiva que o colocou numa cegueira racional tão grande que teve que voltar da rodoviária para casa e depois para a rodoviária novamente, pois havia esquecido o dinheiro da passagem e os documentos. Agora seus pensamentos só incluíam sangue, excisões, edemas, tumefações, biópsias involuntárias e, especialmente, desconstrução genital.

A viagem, porém, não era curta, e ficar preso dentro de um local tão claustrofóbico em rodovias que cruzavam paisagens tão infinitas era um exercício de paciência elevado a muitos graus, dado seu estado psicológico no momento. No início do caminho, até pensara em quebrar a saída de emergência, pular do ônibus e correr, correr, correr, até alcançar seu destino... Até que quinze minutos depois percebeu que isso era uma ideia ridícula. Foi a partir daí que seus pensamentos se tornaram sádicos, ainda mais quando a pura ira emocional se dissipou para dar lugar a uma fúria consciente. Foi aí que se lembrou de todas as vezes em que ele mesmo levara seus dois filhos para a casa do avô em tantos finais de semana ensolarados ou quando todos iam juntos à praia em passeios sorridentes. Como ele estivera cego dos fatos durante todo esse tempo? Como poderia seu próprio pai...? Sua razão ainda estava anuviada demais para pensar que, por mais horrível que seja essa constatação, na maior parte das vezes isso ocorre com conhecidos e familiares das vítimas. Diego Pinheiro deu um soco na poltrona à sua frente, mas se desculpou em seguida.

As horas passaram e a tarde deu lugar à noite, assim como sua fúria deu lugar a um ódio depressivo. Diego começou a chorar e correu para o banheiro do ônibus, onde poderia se expressar sem atrair os olhares dos seus colegas de passagem. Ali ele chorou, deu golpes em sua própria perna, e molhou toda a sua cabeça, até que - tum! tum! tum! - batidas na porta o despertaram. Ele apertou a descarga após ter passado um tempo considerável fechado naquele cubículo. O passageiro que o esperava à porta perguntou se tudo estava bem e Diego respondeu que sim. Retornou ao seu assento em um estado de torpor e permaneceu assim enquanto observava o pôr-do-sol por entre as montanhas. O céu em tons de rosa, laranja e anil combinava com seu estado mental. Diego ainda pensava no que fazer quando chegasse a Santos. Daria ele uma surra em seu pai? Não seria muito extremo? Iria ele na delegacia de polícia abrir um processo? Pela primeira vez, Diego pensou que talvez não tivesse sido uma boa ideia sair do Rio de Janeiro...

A noite agora estava fria e no apagão mental de sua ira ele não havia trazido nenhum agasalho. Não havia trazido nada além de sua carteira, na verdade. Só restava suportar o clima. Com o corpo frio, a mente também havia refrescado mais e o ódio se tornara em uma raiva um pouco mais tolerável nesse momento. Foi então que finalmente ele conseguiu bolar planos concretos do que faria em Santos: ele iria direto à casa de seu pai, bateria na porta, e o trataria normalmente, como se houvesse feito uma visita surpresa, ainda que ele nunca faça visitas surpresas. Só soltaria a bomba do conhecimento do crime algum tempo depois e tudo dependeria de como o velho iria reagir. Bater no pai estava fora de cogitação, claro, que absurdo, ainda que o que o pai fizera tenha estragado boa parte da vida que ele havia planejado para seus filhos. Se o pai ao menos pudesse devolver o que havia tirado dos netos... No entanto, Diego sabia que isso era impossível e que as circunstâncias eram irreversíveis. Nem ao menos processar o pai adiantaria alguma coisa. Era frustrante, mas aparentemente nada poderia ser feito para reverter, remediar ou mesmo vingar a situação.

Ao chegar na rodoviária e cruzar a Praça dos Andradas, sua raiva se transformou em apenas uma irritação funcional. O pai morava tão perto que se podia ir à pé. Enquanto caminhava, sua mente pôde, enfim, respirar novamente. Diego então começou a calcular quantas dezenas de milhares havia perdido na apropriação indébita de seu pai e quanta porcentagem isso representava para seus filhos, que haviam herdado uma boa parcela da empresa de cosméticos da falecida avó. Aproximadamente trinta mil reais durante esses cinco anos! Eles poderiam estar estudando em colégios muito melhores; poderiam estar conhecendo uma boa parte do mundo desde já; poderiam ter ganhado todos os presentes que queriam e o pai não pôde dar, inclusive o PlayStation 3 que acabava de ser lançado neste Natal... Diego apertou o botão da campainha do pai e pelo olho mágico se pôde ver uma esfera brilhante. Do lado de fora, a flor da pele se abrochou em um botão.

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