05/07/2017

8. A Pioneira do Biquíni

Era fim de tarde na pequena praia do Arpoador em Ipanema, na capital do Brasil, Rio de Janeiro. Dezenas de pessoas se reuniam no local: banhistas de água se jogando no mar; banhistas de sol se afundando na areia; banhistas de brisa por cima das pedras; banhistas de sombra debaixo das árvores. Nair Pinheiro pertencia a este último grupo. Ela era residente do bairro da Tijuca, mas não raramente tomava o bonde com as amigas e iam juntas para as praias do Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema ou Leblon - tudo dependia do estado de espírito. No entanto, Nair gostava do Arpoador - pequena e simples, com uma vista incrível. Embora Edina e Alzira preferissem praias maiores e de banhos de mar e sol, elas gostavam de Nair o suficiente para também atenderem à introspecção da amiga e ignorarem as folhas das árvores insistindo em pousar sobre seus cabelos. Além do mais, o Arpoador estava cheio hoje - e com rapazes lindos -, então não havia do que reclamar. Nair não ligava para os rapazes, ela estava ali pelo por-do-sol, pelo som das ondas, pelas crianças e cachorros, pelos morros ao longe, pelas belezas naturais do Distrito Federal.

Enquanto Edina e Alzira conversavam, Nair permanecia quieta e absorta em seu deslumbramento (algo frequente que as duas amigas chamavam de "momentos Nair"), quando uma bola colorida de praia atingiu Edina em cheio no nariz e esta fez um imediato escarcéu. Neste exato momento, um alto barulho de aplausos e assobios preencheu os ares da praia, o que enfureceu Edina ainda mais. Alzira tentou acalmá-la enquanto um garotinho buscou a bola pedindo desculpas. Nair buscou a fonte dos aplausos que a distraíram de seus pensamentos e percebeu estarem vindo de cima das pedras do Arpoador. As pessoas estavam olhando em direção ao mar e não para Edina. Ela estranhou, afinal de contas, ela ainda via o sol. Uma tradição no Arpoador é de que as pessoas sobem nas rochas para observarem e aplaudirem o sol se pondo do lado da Pedra da Gávea e do Morro Dois Irmãos, certamente um espetáculo visual digno de aplausos, mas ainda era cedo - por mais que o dia estivesse se acabando, ainda podia-se ver claramente o sol se aproximando do horizonte. Edina, ao notar a algazarra sendo dirigida em direção ao mar, retomou sua compostura. Alzira quis alimentar sua curiosidade e chamou as duas amigas para subirem as pedras.

Ao chegarem no local, as três amigas descobriram o motivo dos aplausos e cantorias: Miriam Etz, uma imigrante alemã, caminhava próximo ao mar usando uma roupa de banho muito peculiar, com apenas duas pequenas peças tapando, respectivamente, seu busto e sua cintura, deixando uma boa parte de seu corpo exposto. Edina, Alzira e Nair sorriram simultaneamente, mas com três mentalidades distintas: enquanto Edina sorria para demonstrar escárnio, não acreditando e abominando a vulgaridade que testemunhava, Alzira sorria pelo poder da moça, com certa inveja da reação que ocasionara aos homens, jurando em silêncio que estaria trajando a mesma peça dentre alguns dias. Nair, todavia, sorria pela circunstância inteira em que se encontrava. Algo dentro dela dizia que aquele momento era relevante. Ela observou a moça, alheia ao que provocava, com seus cabelos fartos oscilando com o vento; ela observou os rapazes hipnotizados, com seus olhos transfixos e desacreditados, assobiando e aplaudindo o inalcançável; ela observou as duas amigas sorrindo e, as conhecendo muito bem, soube interpretar perfeitamente suas motivações; por fim, ela observou o sol finalmente tocando a linha do horizonte e compreendeu que, por mais belo que fosse, os méritos individuais do astro-rei sucumbiam diante de toda a complexidade que fluía da natureza humana.

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