30/06/2017

5. Os Lorpps no Planeta Bradubos

Cloxtalzac se rasteja pelos rochedos que flutuam sobre o oceano de magma do planeta Bradubos. Seu corpo é uma massa gelatinosa de cor roxo-escura e ele não possui nenhuma característica humanoide. O planeta Bradubos fica a mais de 20 bilhões de anos-luz do planeta Terra. Humanos ainda não sabem da existência de vida aqui (e de nenhum lugar fora do Sistema Solar) e os bradubianos não possuem sequer a capacidade de raciocinar de maneira abstrata, então apenas buscam incessantemente o metano líquido de cada dia para seguirem sobrevivendo.

Cloxtalzac, porém, passaria por uma metamorfose rara em sua cotidiana travessia de lava. Essa metamorfose ocorre apenas em sua espécie, os gelatinosos lorpps (Bradubos, assim como a Terra e 95% dos planetas com vida, possui diversas espécies de seres vivos), e afeta 1 em cada 5 milhões de indivíduos. Essa metamorfose faz com que seu corpo derreta sobre os rochedos ardentes, por conta de uma falha instantânea no mecanismo homeostático de seu corpo, e, num processo de sublimação, se transforme em vapor. Esse vapor sobe rapidamente à atmosfera até chegar a uma camada que é o equivalente da mesosfera terrestre - completamente gélida. Nesse ponto, o lorpp que passa por essa metamorfose (como Cloxtalzac está passando agora), se transforma em um cubo sólido, embora extremamente leve. Nessa fase o lorpp flutua sobre o planeta por uma média de 25 anos (1 ano bradubiano corresponde a mais ou menos 7 meses terrestres) e com um pouquinho de sorte encontra diversos outros lorpps planando pela atmosfera, passando pelo mesmo processo de transformação. Se dois desses lorpps se tocarem, eles não só trocam informações genéticas, como retardam o tempo que passariam nesse estado, aumentando de massa e sendo puxado pela gravidade de Bradubos.

Tracxotoa é outra lorpp passando pela metamorfose e já plana por 14 anos. Sem precisar de comida, pois o processo de hibernação dos lorpps em transformação é muito eficaz, sua existência durante esses anos consiste apenas em rumar sem direção, sem destino, sem consciência e sem necessidades fisiológicas. Neste dia, porém, a sorte a pegou: Cloxtalzac se chocou contra ela e os dois começaram a cair lentamente enquanto giravam grudados um no outro, como um par de dançarinos valsando pelos densos ares em movimentos tão vagarosos que o olho humano seria incapaz de captar a rotação. Dois anos depois, os dois, ainda trocando material genético, finalmente pousam sobre uma montanha. Ali, eles ainda ficariam por mais um ano em hibernação.

Os dados do destino decidem se a dupla é destruída por devoradores descomedidos ou se os dois se desatam e se dedicam a perdurar e reproduzir.