02/07/2017

6. Sobre os Sentimentos e o Âmago do Ser

David Alex Amberfield (1863-1927) foi um filósofo da mente, neurologista e psicólogo inglês conhecido pelo seu tratado On Feelings and the Core of Being ("Sobre os Sentimentos e o Âmago do Ser" ou "Sobre Sentir e o Cerne do Ser", dependendo da edição traduzida), publicado originalmente em 1921. O livro descreve suas teorias filosóficas sobre a mente através de uma abordagem neuropsicológica, além de dissertar sobre questões históricas e sociológicas sobre o tema e também conter um pequeno ensaio futurologista. Rejeitando as ideias de contemporâneos como Sigmund Freud e Ernest Jones, o livro ataca o que ele vê como a "hiperssexualização" da psicanálise e tem como tema central a questão das emoções humanas sendo produzidas primariamente através de ações externas no ambiente em que se vive. Ainda que isto o aproximasse do behaviorismo, Amberfield igualmente rejeitou as ideias de John B. Watson, chamando-o de "poodle do Pavlov", e argumentou em defesa de uma teoria internalizada dos sentimentos. Nesse sentido, suas ideias influenciaram fortemente o behaviorismo radical de B. F. Skinner e outras de suas teorias, em contraste, influenciaram a psicologia cognitiva, sendo que Amberfield é considerado um dos pais da neurociência cognitiva. Por sua vez, Amberfield disse ter tido apenas uma grande influência em sua carreira: a de seu professor Jean-Martin Charcot - e isso é notável pela ênfase que sempre deu sobre tratamentos a partir da hipnose e da arte. Embora não tenha sido imediatamente reconhecido, Sobre os Sentimentos e o Âmago do Ser foi um livro muito aceito por psicólogos nas décadas posteriores de sua publicação, suplantando progressivamente as teorias de Freud e Jung, até cair em descrédito no final daquele século por conta dos novos estudos sobre emoção conduzidos em 1998 pelos psiquiatras José Almeida da Costa e Wojciech Kozłowski. Seu uso no estudo da neurologia foi dado como obsoleto em poucas décadas, mas suas ideias filosóficas, apesar de terem desvanecido durante meados do século XX, voltaram a ter prestígio na passagem do milênio e continuam influenciando filósofos da mente e cientistas cognitivos neste fim de século XXI.

O livro é dividido em três partes e um apêndice. Na primeira parte, Amberfield traça uma perspectiva histórica e sociológica do estudo da neurologia, descrevendo procedimentos como a antiga trepanação e a então atual eletroterapia, e também comparando o desenvolvimento da neurofisiologia através dos séculos com uma complexidade cada vez maior na expressão sentimental da humanidade, especialmente através da arte e da linguagem, uma ideia que ele chama de metaneuropercepção - a percepção coletiva que a humanidade desenvolve ao estudar sua própria mente, ocasionando o aumento progressivo da inteligência emocional (e, com isso, também novas neuroses ao lidarmos com essas novas descobertas sentimentais). Amberfield afirma que "na efervescência filosófica da Grécia Antiga, os gregos possuíam seis palavras para o 'amor', algo que se apagou na escuridão anticientífica da Idade Média, mas que foi resgatado na riqueza lírica da Renascença de William Shakespeare e nos neologismos dos pensadores do Iluminismo – incitando a criação da própria palavra neologismo no séc. XVIII para expressar esse novo sentimento de onipotência, em que agora tudo podemos criar, inclusive novos vocábulos". Entretanto, indo contra alguns de seus contemporâneos, sobretudo numa época em que a ideia racista da eugenia era considerada seriamente por alguns intelectuais, Amberfield se sentiu na necessidade de argumentar que "ainda que culturas não estritamente científicas, como diversas tribos africanas ou indígenas, não tenham uma teoria rigorosa sobre a mente, (...) há de se argumentar a favor de um desenvolvimento progressivo do conhecimento tribal que se assemelhe rusticamente à evolução da nossa tradição científica europeia, por mais que as ideias tradicionais desses povos não sejam organizadas numa estrutura teórica, (...) assim, podendo ocasionar a mesma metaneuropercepção que testemunhamos no mundo ocidental, e permitindo ignorarmos a hipótese de serem povos necessariamente miseráveis em sentimentos".

Na segunda parte do livro, David Alex Amberfield se aprofunda na neurofisiologia, especialmente a eletrofisiologia neuronal, descrevendo por minúcias técnicas o funcionamento das redes neurais através do processo de sinapses químicas e elétricas, citando o trabalho relativamente recente de Santiago Ramón y Cajal, e formando uma base na qual as próximas partes do livro se apoiarão. Na terceira parte, o livro expõe suas famosas teorias de psicologia e filosofia da mente, começando por uma ideia neuropsicológica similar ao que viria a ser formulada quase um século mais tarde como os correlatos neurais da consciência (que aqui ele chama de estímulo reagente mínimo), que são os mecanismos do sistema nervoso mínimos suficientes para alguma percepção específica. Com essa ideia, Amberfield esteve muito à frente de seu tempo. Ele então prossegue contrastando isso com o estímulo reagente máximo, que transcende o indivíduo e são os estímulos culturais e epistemológicos que o ser humano coletivamente adquire com o passar do tempo, incluindo a metaneuropercepção, mas também alguns outros conceitos, como uma ideia precursora da memética, que ele chamou de evolução ideológica (e em outro trecho, Darwinismo ideológico). Após analisar os dois extremos, Amberfield passa a definir seu conceito principal, o estímulo reagente central ou simplesmente o âmago do ser. Esse é o elemento que ele considerou o mais relevante em sua teoria. Aqui ele aproveita para demonstrar sua oposição à psicanálise e à "hiperssexualização" que Freud iniciou dentro da neurologia e psicologia. Amberfield argumenta que o chamado "inconsciente" nada mais é do que uma reação puramente física do que percebemos ao nosso redor desde que nascemos, e não um local abstrato gerador de todas as nossas ações. Ele segue descrevendo o âmago do ser, um conceito que define os estímulos que recebemos externamente (e que navegam internamente através das nossas redes neurais) e que contribuem para todos os nossos sentimentos e emoções. Esses estímulos são aprendidos e acumulados durante nossas vidas, tal como o behaviorismo teoriza. No entanto, enquanto o behaviorismo clássico não aceita a existência da introspecção, Amberfield teorizou que o âmago do ser se transforma em diversos processos mentais, como os sentimentos, emoções, memórias, percepções e linguagem. A partir daqui, ele se aproxima da psicologia cognitiva, descrevendo diversos tipos de cada um desses processos. Apesar dos estímulos passarem pelo âmago do ser, eles não se originam de lá, pois são somente estímulos navegando pelo sistema nervoso e provocando reações em nosso corpo. Esta terceira parte do livro é finalizada com algumas práticas terapêuticas que Amberfield considera eficazes para tratar certas neuroses, na qual, além de um tipo de condicionamento behaviorista alterado para se encaixar com suas teorias do âmago, de forma que rejeita a frieza do behaviorismo clássico e considera os sentimentos do paciente (o condicionamento do âmago, ou core conditioning), ele também descreve a psicoterapia tradicional, hipnose, música, arte e eletroterapia.

O livro se encerra com um apêndice onde David Alex Amberfield tenta prever futuras práticas dentro da neurologia e psicologia. O avanço extremamente eficaz da arteterapia e, principalmente, da musicoterapia foram duas de suas previsões que se concretizaram, assim como sua predição de que a eletroencefalografia em humanos se tornaria comum (a primeira foi realizada apenas 3 anos após a publicação de seu livro), mas mais importante foi sua estimativa de que a hipnoterapia se tornaria a principal terapia no mundo - só no ano de 2085, mais de 600 milhões de pessoas ao redor do mundo faziam hipno, com 76% das pessoas declarando que se sentiam significativamente melhores e outras 18% se sentiam um pouco melhores. Porém, ele não teve apenas acertos. Previsões que não aconteceram incluem uma de suas ideias mais peculiares e controversas - a de que o café era responsável por certos casos de histeria, psicose e depressão maníaca, e de que eventualmente isso seria provado aos rigores científicos e o café deixaria de ser produzido comercialmente, com a população mundial o substituindo por chá. Ele também previu uma máquina que seria capaz de alterar nosso estado mental instantaneamente através de um aparelho similar ao eletroencefalograma. Ainda que haja muitas pesquisas sobre isso atualmente, não estamos muito perto de termos uma máquina tão eficaz para o complexo cérebro do ser humano (cientistas de Nova Delhi conseguiram, em 2088, retirar a sensação de fome em dois ratos de laboratório, mas levou entre 20 a 30 minutos para cada um, além de haver controvérsias nos resultados). Porém, a influência duradoura que David Alex Amberfield teve na história do estudo da mente humana é testemunho maior de que suas ideias principais, contidas no resto deste e outros de seus livros, foram suas maiores profecias.

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