29/07/2018

13. 13

"SEGURA!" – uma voz ressoa distante, acompanhada por passos corridos e respiração ofegante. Duas das três pessoas no elevador estendem os braços para que a porta ruiva de ferrugem não feche. Após alguns segundos, o rapaz surge cansado, faltando-lhe o ar, murmurando um "obrigado" em duas sílabas. O silêncio prévio do cubículo é consumido pelo arfar penoso do jovem, um som que se intensifica com o cerrar da porta. De sua jaqueta, seus dedos gordos retiram um nebulímetro, que ele agita e inala; uma cacofonia de sons que os passageiros não esperavam até minutos atrás. No terceiro andar, uma passageira sai, aliviada do incômodo social que a interação em dois metros quadrados pode ocasionar. Só então, o rapaz aperta o botão de seu andar, para a surpresa dos dois passageiros restantes: um deles o fita descaradamente com um olhar de quem acabou de testemunhar uma heresia; o outro, que está recostado ao fundo do elevador, o olha de baixo para cima, com o mesmo desprezo de quando decidiu não esticar o braço anteriormente. "Você viu que botão você apertou?!" – diz o primeiro, rapidamente, antes que o seu andar chegue. "Sim, quero ir para o 13 mesmo" – responde o jovem roliço. "Você é maluco!" – retruca o primeiro, ao mesmo tempo em que o elevador estaciona no sexto andar. "Você sabe o que acontece lá, né?!" – o mesmo indaga enquanto sai pela porta. "Sei sim, eu sou um explorador" – responde decidido o rapaz, enquanto mostra suas insígnias de escoteiro pregadas à sua jaqueta. Com um olhar incrédulo, sem dizer mais nada, a porta se fecha na cara do segundo passageiro. Agora, a sós com o doido, o terceiro passageiro, sem se retirar de sua posição de repouso, resolve se manifestar com uma voz calma, ainda que cética: "Então você acha que é capaz de lidar com o andar 13...". O jovem adulto, do alto de sua confiança, explica que já passou por provas físicas muito piores no escotismo, onde sua asma se exibiu de forma violenta. "Não há bombinha que te salve dos horrores que você irá encontrar..." – reitera o terceiro passageiro – "boa sorte" – diz ele ao sentir o elevador diminuindo a velocidade até parar no 13º andar e a porta se abrir, o que o faz abaixar a cabeça para o piso do cubículo, evitando até mesmo um simples olhar para o corredor escuro que agora se encontra em sua frente. O rapaz asmático cruza sozinho o portal enferrujado após um breve sentimento de insegurança e ansiedade.

Após a porta se fechar e o elevador subir em sua rota vertical, um silêncio absoluto tomou conta do ambiente, como se não existisse mais nada além das paredes daquele corredor e da respiração que agora ficava cada vez mais pesada. Apesar de ser dia, não havia muita iluminação naquele local, pela falta de janelas e lâmpadas funcionais, portanto o escoteiro sacou sua lanterna e a ligou imediatamente. A luz súbita revelou em menos de um segundo o que aparentou ser um formato humanoide mas completamente escuro, sem nenhum detalhe biológico, uma sombra materializada em terceira dimensão para instantaneamente desaparecer sob a iluminação da lanterna. O jovem soltou um grito e voltou correndo para o elevador. Lá ele moveu sua lanterna para todos os cantos e, ao não ver nada além do ordinário, se convenceu de que sua imaginação estava lhe pregando peças. "Você é mais forte do que isso!" – pensou alto. Continuou a caminhar lentamente pelo único corredor e, ao enxergar uma porta entreaberta entre várias portas fechadas de quartos abandonados, decidiu entrar. "Se é para provar minha coragem, vou escolher os caminhos mais amedrontantes!" – pensou baixo. Ao empurrar a porta com a mão, ouviu um barulho por suas costas. Quando virou a cabeça para ver o que era, o vulto que havia visto anteriormente estava parado diante dele, tremendo como se estivesse em convulsão, mas em pé com seus mais de dois metros de altura. Uma barulheira horripilante surgiu em meio ao nada - uma orquestra dissonante com sons de sibilos asmáticos e aspirações de nebulímetros. As ondas sonoras do grito que o jovem deu foram intensificadas, comprimidas e ampliadas a cada encontro com as paredes do corredor, o que transformou o grito num agudo ensurdecedor e cortante, fazendo quebrar a luz de sua lanterna e de outros vidros espalhados pelo andar. Sem escapatória, o rapaz correu para dentro do quarto que havia se proposto entrar, arremessando a lanterna contra o vulto, que agora havia desaparecido. Os sons também desapareceram repentinamente.

Sozinho na escuridão e no silêncio, com a plena certeza de que tudo era real, não havia mais nada a fazer, exceto criar coragem de voltar para o elevador e ir embora dali. Um breve momento para analisar seus arredores e tentar ouvir algum som vindo do corredor foi o suficiente - com a pressa de um fugitivo, o jovem se preparou e resolveu correr em direção ao elevador. Quando virou pelo corredor, viu o elevador parado com a porta aberta e uma pessoa dentro, então gritou com toda a sua força e desespero: "SEGURA!". A pessoa estendeu o braço e a porta do elevador fechou violentamente, decepando o braço do passageiro e fazendo esguichar sangue de maneira desproporcional por todo o corredor. O braço amputado permaneceu suspenso no ar e o jovem escoteiro, com suas roupas, suas insígnias e seu rosto cobertos de sangue, caiu e se ajoelhou no chão, num misto de absoluto horror, nojo, decepção, estresse e angústia. Chorou e gritou e praguejou e soluçou e esmurrou o piso, quando percebeu um ataque de asma se formando. Ao colocar as mãos dentro dos bolsos de sua jaqueta, percebeu que não havia mais bolsos ali. Também não havia mais insígnias e somente os destroços de alguns objetos que ele havia trazido, tal como sua bombinha. Foi como se o sangue, como um ácido, tivesse dissolvido parte de suas roupas e de seus pertences, mas estranhamente não a sua pele, embora ele sentisse uma leve ardência. Seu ataque de asma somente crescia e progressivamente seus brônquios inchavam cada vez mais, obstruindo-lhe a passagem do ar. Deitado no chão, o rapaz agora sufocava até a morte, enquanto uma misteriosa luz crescia por todo o ambiente. Sua respiração ofegava cada vez mais forte, e suas mãos, ele as levava ao peito. Com seus olhos arregalados, ele via centenas de outros olhos arregalados que se espelhavam do teto e das paredes, junto com a mesma sinfonia dissonante e volumosa de sibilos e respirações que havia tocado anteriormente. A luz cresceu tanto que o ambiente ficou profundamente branco, consumindo até mesmo a cor vermelha de todo o sangue, mas mantendo os pontos pretos das centenas de pupilas dilatadas. Diante dele, o vulto escuro, gigante, imponente, exorbitante, surgiu convulsionando. O rapaz estendeu o braço numa última esperança de ajuda e o vulto estendeu de volta. Nesse momento tudo desapareceu e o corredor voltou ao seu silêncio e breu pertinentes.

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