23/03/2016

2. Táxi Autônomo e Música Futurista

Luna van der Staal costuma ir à praia no período da noite. Ela mora no Brooklyn, mas prefere as praias de Staten Island, embora ela vá para Manhattan Beach de vez em quando, como nesta ocasião. Ela só tem um motivo para ir à praia: se desligar - ou, como era de sua opinião, se ligar dentro de si mesma.

Nova York não tem mais seu prestígio como antigamente, mesmo que agora a cidade tenha crescido para 15 milhões de habitantes e anexado três condados de New Jersey (Hudson, Bergen e Union, que contêm municípios como Jersey City, Hoboken e Union City) como seu sexto borough (apenas chamado de "Jersey"). Hoje em dia há muitas metrópoles similares ao redor do mundo e diversas delas construídas para suplantar os erros urbanísticos dessas cidades antigas como Nova York, e isso explica seu relativo fracasso em manter sua reputação.

Luna pegou seus brainphones e desceu os 25 andares pelo elevador. Fora de seu prédio, ela apertou o botão do táxi autônomo, que chegou em cerca de 1 minuto. Esse botão é instalado em praticamente todos os tipos de residência e comércio; é um pequenino painel preto onde você encosta três dedos simultaneamente e um sinal via satélite GPS é enviado para o táxi mais próximo. Encostar o nariz também é válido, no caso de pessoas amputadas. O táxi autônomo é um serviço de transporte público totalmente gratuito, porém não tão rápido quanto um maglev ou um drone pessoal. Ao entrar no táxi, Luna precisou dizer o termo-chave "rota do táxi" e o endereço, que neste caso foi: "cruzamento da Oriental Blvd. com a Hastings Street". O táxi automaticamente iniciou sua rota. Luna honestamente preferiria a velocidade do maglev para chegar o quanto antes em seu paraíso metropolitano, mas ter que encontrar dezenas de pessoas no metrô é algo que a deixava apreensiva.

O relógio do táxi marcava 1:37am quando o carro parou, anunciando o fim de seu trajeto com uma voz suave e duas notas melodiosas (um sol e um ré decrescentes). Luna saiu do carro e caminhou em direção à areia. É uma praia pequena e solitária, escondida da grande cidade no meio de uma península residencial. À noite não costumava ter ninguém. Sentada na areia, de frente para o mar, Luna encaixou os brainphones dentro de seus ouvidos e começou a cantarolar uma música summerfall que havia descoberto há poucos dias e achado maravilhosa. O gênero summerfall está em alta nesse início de anos 2090 e consiste num misto de summerwave com fallwave, dois gêneros de música eletrônica que surgiram no final dos anos 2080. Assim que Luna começou a cantarolar, seus brainphones reconheceram a melodia e a música se iniciou. Com os sensores neuroeletrônicos, bastava Luna ter pensado na melodia da música, mas ela adora cantar. A música em questão se chama "Leaves of Rainbow Grass" e a letra narra uma viagem cromática entre insetos de diferentes espécies numa fazenda sintética - um desses insetos se desorienta no colorido da grama e passa a viver isolado. A harmonia é um misto de acordes maiores (marca do summerwave) com acordes menores (marca do fallwave), às vezes com breaks onde dois ou três acordes são sobrepostos (marca dos dois estilos) e formam uma cacofonia harmoniosa. As batidas são extremamente sincopadas e o andamento se acelera e diminui com certa frequência, dando ao ritmo um caráter inconstante. Para alguns jovens, o summerfall (e seus dois gêneros ancestrais) representa a liberdade e também a aceitação dos aspectos positivos e negativos da vida. Para outros jovens, é apenas um bom tipo de música para dançar, flertar e usar drogas. Para Luna é um escapismo. De costas para a cidade e com os ouvidos tapados, ela agora entra num mundo de cores, criaturas e solitude.